De medos e afetos

Cris Guerra julho 16, 2019 0 comments 344 Visualizações
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Se para ele houvesse bula, traria escrito: “Para uso externo”. Ao tratar os corações de seus pacientes, condenava-os a uma eterna devoção. Dentro de casa, meu pai já não era tão doce. Mesmo devorando a sobremesa em dois atos – fosse goiabada, bananada ou marmelada. “Não posso esquecer as adas do seu pai”, dizia Mamãe no supermercado, deixando para trás as uvas italianas (suas preferidas) na hora de passar no caixa. A doença dela era adiar seus desejos para nunca.

Vigilante, aviava a receita para lidar com meu pai: controlar os decibéis do tom de voz; evitar tocar em problemas; manter intocável o que havia de melhor na geladeira. Poupado de tudo, temido por todos. Não me lembro, no entanto, de ter conhecido fúria a altura do pavor nos olhos dela. Tentando fazer a ponte até ele, o que Mamãe fez foi um muro. E como é assustador o que não vemos.

No almoço, ele comentava o cardápio e a taxa de colesterol de algum paciente. Degustávamos um prato e um caso clínico. Seu tom era grave e seus pontos de vista, definitivos. Tinha senso de humor, mas cobrava exatidão. Palavras devidamente empregadas, respostas convincentes. Eu tentava me manter calada, mastigando obediência e revolta. Era como estar num tribunal, de onde muitas vezes saí condenada.

Engolir seu doce às pressas era uma forma de chegar logo ao cochilo depois do almoço. Finalmente uma breve pausa para as dores do que não podia curar. Sua paz era nosso inferno: bastava um paciente ligar, e dizer que ele não estava podia se tornar crime inafiançável. Acordá-lo para uma urgência poderia ser outro ainda pior – as leis mudavam ao sabor dos ventos. Eu me garantia anotando os recados. Caprichava na letra, incluía data e horário. Queria colher dele um elogio.

Num belo dia, ele me deu um carro. Justificou: “Para suas irmãs, dei festa de casamento”. Talvez, como eu, tenha sonhado em me conduzir ao altar. Mas foi o Cemitério do Bonfim que adentramos de mãos dadas para enterrar minha mãe. “Só sei que hoje é dia de comemorar”, disse, em sua coragem de expressar o perturbador. Egoísmo desejar que ela continuasse respirando, já que aquilo não era mais vida.

Restamos eu e ele em casa, um com medo do outro. Detalhistas. Explosivos. O que eu temia nele era o que não notava em mim. Era muito mais sua filha do que pensava.

Certa vez, bateu à porta do meu quarto para uma confissão. “Ou me caso de novo ou viro um Don Juan”. Dei carta branca para que fosse feliz. Comprou um carro vermelho com teto solar, casou-se, foi à Europa, dançou de rosto colado. Tinha pressa de viver.

Eu ainda morava com ele quando comprei meu primeiro celular. O trabalho me mantinha fora de casa. Um dia o aparelho tocou. “Estou com saudades”, disse Papai do outro lado da linha. Em lugar da fúria, o afago nunca sonhado. “Eu também, Pai”, respondi num engasgo. Minha saudade era de muitos anos.